• O menino que carregava água na peneira- Manuel de Barros

    O menino que carregava água na peneira

    Tenho um livro sobre águas e meninos.
    Gostei mais de um menino
    que carregava água na peneira.

    A mãe disse que carregar água na peneira
    era o mesmo que roubar um vento e
    sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.

    A mãe disse que era o mesmo
    que catar espinhos na água.
    O mesmo que criar peixes no bolso.

    O menino era ligado em despropósitos.
    Quis montar os alicerces
    de uma casa sobre orvalhos.

    A mãe reparou que o menino
    gostava mais do vazio, do que do cheio.
    Falava que vazios são maiores e até infinitos.

    Com o tempo aquele menino
    que era cismado e esquisito,
    porque gostava de carregar água na peneira.

    Com o tempo descobriu que
    escrever seria o mesmo
    que carregar água na peneira.

    No escrever o menino viu
    que era capaz de ser noviça,
    monge ou mendigo ao mesmo tempo.

    O menino aprendeu a usar as palavras.
    Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
    E começou a fazer peraltagens.

    Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
    O menino fazia prodígios.
    Até fez uma pedra dar flor.

    A mãe reparava o menino com ternura.
    A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
    Você vai carregar água na peneira a vida toda.

    Você vai encher os vazios
    com as suas peraltagens,
    e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

     

  • O fazedor de amanhecer – Manuel de Barros

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    O fazedor de amanhecer

    Sou leso em tratagens com máquina.
    Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.
    Em toda a minha vida só engenhei
    3 máquinas
    Como sejam:
    Uma pequena manivela para pegar no sono.
    Um fazedor de amanhecer
    para usamentos de poetas
    E um platinado de mandioca para o
    fordeco de meu irmão.
    Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias
    automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
    Fui aclamado de idiota pela maioria
    das autoridades na entrega do prêmio.
    Pelo que fiquei um tanto soberbo.
    E a glória entronizou-se para sempre
    em minha existência.

     

  • O apanhador de desperdícios- Manuel de Barros

    O apanhador de desperdícios

    Uso a palavra para compor meus silêncios.
    Não gosto das palavras
    fatigadas de informar.
    Dou mais respeito
    às que vivem de barriga no chão
    tipo água pedra sapo.
    Entendo bem o sotaque das águas
    Dou respeito às coisas desimportantes
    e aos seres desimportantes.
    Prezo insetos mais que aviões.
    Prezo a velocidade
    das tartarugas mais que a dos mísseis.
    Tenho em mim um atraso de nascença.
    Eu fui aparelhado
    para gostar de passarinhos.
    Tenho abundância de ser feliz por isso.
    Meu quintal é maior do que o mundo.
    Sou um apanhador de desperdícios:
    Amo os restos
    como as boas moscas.
    Queria que a minha voz tivesse um formato
    de canto.
    Porque eu não sou da informática:
    eu sou da invencionática.
    Só uso a palavra para compor meus silêncios.

     

  • O livro sobre nada- Manuel de Barros

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    O livro sobre nada

    É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
    Tudo que não invento é falso.
    Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
    Tem mais presença em mim o que me falta.
    Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
    Sou muito preparado de conflitos.
    Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
    O meu amanhecer vai ser de noite.
    Melhor que nomear é aludir.
    Verso não precisa dar noção.
    O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
    Meu avesso é mais visível do que um poste.
    Sábio é o que adivinha.
    Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
    A inércia é meu ato principal.
    Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
    Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
    Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
    Peixe não tem honras nem horizontes.
    Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
    Eu queria ser lido pelas pedras.
    As palavras me escondem sem cuidado.
    Aonde eu não estou as palavras me acham.
    Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
    Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
    A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
    Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
    Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
    Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
    Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
    O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
    Por pudor sou impuro.
    O branco me corrompe.
    Não gosto de palavra acostumada.
    A minha diferença é sempre menos.
    Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
    Não preciso do fim para chegar.
    Do lugar onde estou já fui embora.

  • Tratado geral das grandezas do ínfimo – Manuel de Barros

    Tratado geral das grandezas do ínfimo

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    A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
    Meu fado é o de não saber quase tudo.
    Sobre o nada eu tenho profundidades.
    Não tenho conexões com a realidade.
    Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
    Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
    Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
    Fiquei emocionado.
    Sou fraco para elogios.

  • A COMPLICADA ARTE DE VER (Rubem Alves)

    A COMPLICADA ARTE DE VER (Rubem Alves)

    Ela entrou, deitou-se no divã e disse: “Acho que estou ficando louca”. Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. “Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões – é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões… Agora, tudo o que vejo me causa espanto.”

    Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as “Odes Elementales”, de Pablo Neruda. Procurei a “Ode à Cebola” e lhe disse: “Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: ‘Rosa de água com escamas de cristal’. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta… Os poetas ensinam a ver”.

    Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.

    William Blake sabia disso e afirmou: “A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê”. Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.
    Adélia Prado disse: “Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra”. Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.

    Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. “Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios”, escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada “satori”, a abertura do “terceiro olho”. Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: “Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram”.
    Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, “seus olhos se abriram”. Vinicius de Moraes adota o mesmo mote em “Operário em Construção”: “De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa – garrafa, prato, facão – era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção”.

    A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas – e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam… Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.
    Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: “A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas”.

    Por isso – porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver – eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar “olhos vagabundos”…

  • A função da educação- por J. Krishnamurti

    A função da educação- por J. Krishnamurti
    Você já reparou como a maioria das pessoas a sua volta tem pouca energia, inclusive seus pais e professores? Eles estão morrendo aos poucos, mesmo quando seus corpos não estão ainda velhos. Por que? Porque eles foram levados à submissão pela sociedade. Veja, sem compreender seu propósito fundamental que é descobrir essa coisa extraordinária chamada mente, que tem a capacidade de criar submarinos atômicos e aviões à jato, que pode escrever a mais surpreendente poesia e prosa, que pode fazer o mundo tão belo e também destruir o mundo – sem compreender seu propósito fundamente, que é descobrir a verdade ou Deus, esta energia se torna destrutiva; e então a sociedade diz, “Devemos moldar e controlar a energia do indivíduo”. Então, me parece que a função da educação é provocar uma liberação de energia na busca da bondade, verdade ou Deus, o que faz do indivíduo um verdadeiro ser humano e, portanto, o tipo correto de cidadão. Mas simples disciplina, sem completa compreensão de tudo isto, não tem significado, é a coisa mais destrutiva. A menos que cada um de vocês seja educado de tal modo que, quando deixar a escola e entrar no mundo, você está cheio de vitalidade e inteligência, cheio de energia transbordante para descobrir o que é verdade, você meramente será absorvido pela sociedade; você será sufocado, destruído, miseravelmente infeliz pelo resto de sua vida. Como o rio cria as margens que o retém, assim a energia que busca a verdade cria sua própria disciplina sem nenhuma forma de imposição; e o rio chega ao mar, bem como essa energia encontra sua própria liberdade.

  • A HISTÓRIA de MUSKIL GUSHÁ

    A Tradição Sufi se utiliza de histórias como um potente instrumento de educação, cura, ajuda e união. Existe uma história em particular que é contada pelos seguidores do sufismo em todo mundo que se reúnem em grupos sempre às noites de quinta-feira enquanto compartilham tâmaras. Eles atribuem à contação dessa história uma força especial de dissipar as dificuldades de quem a conta e de quem a ouve. Nessa semana a trazemos aqui para os amigos da Terra de Rudá desejando que Muskil Gushá os inspire a solucionarem os seus desafios.

     

    A HISTÓRIA de MUSKIL GUSHÁ

    Era uma vez, a menos de mil milhas daqui, um pobre lenhador viúvo, que vivia com sua pequena filha. Todos os dias costumava ir às montanhas cortar lenha, que levava para casa e atava em feixes. Depois da primeira refeição, caminhava até o povoado mais próximo, onde vendia a lenha e descansava um pouco antes de voltar para casa. Um dia, ao chegar em casa, já muito tarde, a menina lhe disse:
    – Pai, de vez em quando gostaria de ter uma comida melhor, em maior quantidade e mais variada.
    – Está bem, minha filha – disse o velho -, amanhã levantarei mais cedo do que de costume, irei mais alto nas montanhas, onde há mais lenha, e trarei uma quantidade maior do que a habitual. Voltarei mais cedo para casa, atarei os feixes mais depressa e irei logo ao povoado vendê-los para conseguirmos mais dinheiro. E lhe trarei uma porção de coisas deliciosas.
    Na manhã seguinte, o lenhador levantou-se antes da aurora e partiu para as montanhas. Trabalhou arduamente cortando lenha e fez um feixe enorme, que carregou nos ombros até sua casa.
    Ao chegar era ainda muito cedo. Então, colocou a carga no chão e bateu à porta, dizendo:
    – Filha, filha, abra a porta. Estou com sede e fome; preciso comer alguma coisa antes de ir para o mercado.
    Mas a porta continuou fechada. O lenhador estava tão cansado que se deitou no chão, ao lado do feixe de lenha, e logo adormeceu. A menina, esquecida da conversa da noite anterior, dormia profundamente.
    Quando o lenhador acordou, algumas horas depois, o sol já estava alto. Bateu novamente à porta e disse:
    – Filha, filha, abra logo. Preciso comer alguma coisa antes de ir ao mercado vender a lenha, pois já é muito mais tarde do que de costume.
    Mas a menina que tinha esquecido completamente a conversa da noite anterior, tinha se levantado, arrumado a casa e safra para dar um passeio. Em seu esquecimento, e supondo que o pai já tivesse ido para o povoado, deixou a porta da casa fechada.
    Assim, o lenhador disse a si mesmo:
    – Já é muito tarde para ir à cidade. Voltarei para as montanhas e cortarei outro feixe de lenha, que trarei para casa, e amanhã terei carga em dobro para levar ao mercado.
    O lenhador trabalhou duro aquele dia, cortando e enfeixando lenha nas montanhas. Já era noite quando chegou em casa com a lenha nos ombros.
    Pôs o feixe atrás da casa, bateu à porta e disse:
    – Filha, filha, abra a porta. Estou cansado e não comi nada o dia todo. Trago uma dupla carga de lenha, que espero levar ao mercado amanhã. Preciso dormir bem esta noite para recuperar minhas forças.
    Mas não houve resposta, pois a menina, sentindo muito sono ao voltar do passeio, preparou sua comida e foi para a cama. A princípio, ficara preocupada com a ausência do pai, mas tranquilizou-se logo, pensando que ele passaria a noite no povoado.
    Cansado, faminto e com sede, vendo que não podia entrar em casa, o lenhador deitou-se novamente ao lado da lenha. Apesar de preocupado com o que poderia estar acontecendo com a filha, não conseguiu ficar acordado: adormeceu logo. Mas, como estava com muito frio, muita fome e muito cansado, acordou bem cedo na manhã seguinte, antes mesmo de o dia clarear.
    Sentou-se, olhou ao redor, mas não conseguiu ver nada. Mas, nesse momento, aconteceu uma coisa estranha. Pareceu-lhe ouvir uma voz que dizia:
    – Depressa! depressa! Deixa tua lenha e vem por aqui. Se necessitas muito e desejas o suficiente, terás uma refeição deliciosa.
    O lenhador levantou-se e caminhou na direção de onde vinha a voz. Andou, andou e andou, mas não encontrou nada.
    Então sentiu mais cansaço, frio e fome do que antes e, além do mais, estava perdido. Tivera muitas esperanças, mas isso não parecia tê-lo ajudado. Ficou triste, com vontade de chorar, mas percebeu que chorar também não o ajudaria. Assim, deitou-se e adormeceu. Logo depois acordou novamente. Sentia frio e fome demais para poder dormir. Foi então que lhe ocorreu narrar a si mesmo, como se fosse um conto, tudo o que tinha acontecido desde que a filha lhe pedira um tipo de comida diferente.
    Mal terminou sua história, pareceu-lhe ouvir outra voz, vinda de algum lugar no alto, como se saísse do amanhecer, que dizia:
    – Velho homem, velho homem, que fazes sentado aqui?
    – Estou me contando minha própria história – respondeu o lenhador.
    – E qual é?
    O lenhador repetiu sua narração.
    – Muito bem – disse a voz, e a seguir lhe pediu que fechasse os olhos e subisse um degrau.
    – Mas não vejo degrau algum – disse o velho.
    – Não importa, faz o que te digo – ordenou a voz.
    O homem fez o que lhe fora ordenado. Mal fechou os olhos, descobriu que estava de pé e, levantando o pé direito, sentiu que debaixo dele havia algo semelhante a um degrau.
    Começou a subir o que parecia ser uma escada. De repente os degraus começaram a mover-se – moviam-se muito rapidamente – e a voz lhe disse:
    – Não abra os olhos até que eu ordene.
    Não se passara muito tempo, quando a voz mandou que o velho abrisse os olhos. Ao fazê-lo, o lenhador achou-se num lugar que parecia um deserto, com um sol escaldante acima dele. Estava rodeado de montes e montes de pedrinhas de todas as cores: vermelhas, verdes, azuis, brancas. Mas parecia estar só; olhou em volta e não conseguiu ver ninguém. Então, a voz começou a falar de novo:
    – Apanha todas as pedras que puderes, fecha os olhos e desce os degraus.
    O lenhador fez o que lhe mandavam e, quando a voz ordenou que abrisse os olhos novamente, encontrou-se diante da porta de sua própria casa. Bateu à porta, e a sua filha veio atender. Ela lhe perguntou por onde ele tinha andado, e o pai lhe contou o ocorrido, embora a menina mal entendesse o que ele dizia, porque tudo lhe parecia muito confuso.
    Entraram em casa e a menina e o seu pai repartiram a última coisa que lhes restava para comer: um punhado de tâmaras secas. Quando terminaram a comida, o velho achou que estava novamente ouvindo uma voz, uma voz igual àquela que o mandara subir os degraus.
    – Embora ainda não o saibas – disse a voz – foste salvo por Mushkil Gusha. Lembra-te: Mushkil Gusha está sempre aqui. Promete a ti mesmo que todas as quintas-feiras, à noite, comerás umas tâmaras, e darás outras a alguma pessoa necessitada, a quem contarás a história de Mushkil Gusha. Ou darás um presente, em seu nome, a alguém que ajude os necessitados. Promete que a história de Mushkil Gusha nunca, nunca será esquecida. Se fizeres isso, e o mesmo fizerem as pessoas a quem contares a história, os que tiverem verdadeira necessidade sempre encontrarão seu caminho.
    O lenhador então colocou todas as pedras que havia trazido do deserto num canto do casebre. Pareciam simples pedras, e ele não soube o que fazer com elas. No dia seguinte, levou seus dois enormes feixes de lenha ao mercado e os vendeu facilmente, por óptimo preço. Ao voltar para casa, levava para sua filha uma porção de iguarias deliciosas que ela jamais havia provado antes. Quando terminaram de comer, o velho lenhador disse:
    – Agora vou lhe contar a história de Mushkil Gusha. Mushkil Gusha significa “O dissipador de todas as dificuldades”. Nossas dificuldades desapareceram por intermédio de Mushkil Gusha, e devemos lembrá-lo sempre.
    Durante uma semana o homem seguiu sua rotina. Ia às montanhas, trazia lenha, comia alguma coisa, levava a lenha ao mercado e a vendia. Sempre encontrava comprador, sem dificuldade.
    Mas chegou a quinta-feira seguinte e, como é comum entre os homens, o lenhador se esqueceu de contar a história de Mushkil Gusha. Nessa noite, já tarde, apagou-se o fogo na casa dos vizinhos. E, como não tinham com que voltar a acendê-lo, foram à casa do lenhador e disseram:
    – Vizinho, vizinho, por favor, dê-nos um pouco de fogo dessas suas lâmpadas maravilhosas que vemos brilhar através da janela.
    – Que lâmpadas? – perguntou o lenhador.
    – Venha cá e veja – responderam.
    O lenhador saiu e viu claramente a variedade de luzes que, vindas de dentro, brilhavam através de sua janela. Entrou e viu que a luz saía do monte de pedras que havia posto num canto. Mas os raios de luz eram frios e era impossível usá-los para acender fogo. Então, tornou a sair e disse:
    – Sinto muito, vizinhos, não tenho fogo – e bateu-lhes a porta no nariz.
    Os vizinhos ficaram aborrecidos e surpresos e voltaram para casa resmungando. E aqui eles abandonam nossa história.
    Rapidamente, o lenhador e sua filha, com medo que alguém visse o tesouro que possuíam, cobriram as brilhantes luzes com todos os trapos que encontraram. Na manhã seguinte, ao destampar as pedras, descobriram que eram gemas luminosas e preciosas.
    Uma a uma, levaram-nas às cidades dos arredores, onde as venderam por um preço enorme. Então, o lenhador decidiu construir um esplêndido palácio para ele e sua filha.
    Escolheram um lugar que ficava exactamente na frente do castelo do rei de seu país. Pouco tempo depois, um edifício maravilhoso estava construído.
    O rei tinha uma filha muito bonita que uma manhã, ao acordar, viu o castelo, que parecia de contos de fadas, bem em frente ao de seu pai. Muito surpresa, perguntou a seus criados:
    – Quem construiu esse castelo? Com que direito fazem uma coisa dessas tão perto do nosso lar?
    Os criados saíram e investigaram. Ao regressar, contaram à princesa tudo o que conseguiram saber.
    A princesa, muito zangada, mandou chamar a filha do lenhador. Porém, quando as duas meninas se conheceram e se falaram, logo tornaram-se boas amigas. Encontravam-se todos os dias e iam nadar e brincar juntas num regato que o rei mandara fazer para a princesa.
    Alguns dias depois do primeiro encontro, a princesa tirou um colar lindo e valioso e pendurou-o numa árvore à beira do regato. Na volta, esqueceu-se de apanhá-lo e, ao chegar em casa, pensou que o tinha perdido. Reflectindo melhor, porém. concluiu que tinha sido roubado pela filha do lenhador.
    Contou tudo ao pai, que mandou prender o lenhador e confiscou-lhe todos os bens. O homem foi posto na prisão, e sua filha levada para um orfanato.
    Como era costume no país, depois de algum tempo o lenhador foi retirado de sua cela e levado para praça pública, onde o acorrentaram a um poste, tendo pendurado ao pescoço um cartaz onde se lia:
    “E isto que acontece a quem rouba dos reis.”
    A princípio, as pessoas juntavam-se à sua volta zombando dele e atirando-lhe coisas. O lenhador estava muito infeliz. Porém, como é comum entre os homens, logo se acostumaram com o velho sentado junto ao poste e lhe prestavam cada vez menos atenção. Às vezes lhe atiravam restos de comida, às vezes nem mesmo isso.
    Uma tarde, ouviu alguém dizer que era quinta-feira. De imediato veio-lhe à mente o pensamento de que logo seria a noite de Mushkil Gusha, “O dissipador de todas as dificuldades”, a quem há tanto tempo se esquecera de comemorar. No mesmo instante em que esse pensamento lhe chegou à mente, um homem caridoso que passava jogou-lhe uma moeda.
    – Generoso amigo – chamou-o o lenhador – você me deu dinheiro que para mim não tem utilidade alguma. Mas se, em sua generosidade, puder comprar uma ou duas tâmaras e vir sentar-se comigo para comê-las, eu lhe ficaria eternamente grato.
    O homem saiu e comprou algumas tâmaras, sentou-se a seu lado e comeram juntos. Ao terminar, o lenhador contou-lhe a história de Mushkil Gusha.
    – Acho que você deve estar louco – disse-lhe o homem generoso.
    Mas era uma pessoa compreensiva e também enfrentava muitas dificuldades. Ao chegar em casa, depois desse incidente, percebeu que todos os seus problemas estavam resolvidos. Isto o fez pensar mais seriamente a respeito de Mush-kil Gusha. Mas aqui ele deixa nossa história.
    No dia seguinte, pela manhã, a princesa voltou ao lugar onde se banhara e, quando ia entrar na água, viu, no fundo do regato, uma coisa que parecia ser seu colar. Porém, no momento em que ia pegá-lo, espirrou, jogou a cabeça para trás, e viu que o que tomara por seu colar era apenas o reflexo dele na água. O colar estava pendurado no galho de uma árvore, no mesmo lugar onde o tinha deixado há muito tempo. Emocionada, apanhou-o e foi correndo contar ao rei o acontecido. Este ordenou que o lenhador fosse posto em liberdade e que lhe pedissem desculpas em público. Tiraram a menina do orfanato e todos viveram felizes para sempre.
    Estes são alguns dos episódios da história de Mushkil Gusha. E uma história muito longa, que nunca termina. Tem muitas formas. Algumas nem sequer se intitulam A história de Mushkil Gusha. Por isso as pessoas não as reconhecem como tal.
    Mas é por causa de Mushkil Gusha que esta história, em qualquer de suas formas, é lembrada por alguém, em algum lugar do mundo, dia e noite, onde quer que exista gente. Tal como sempre tem sido contada, assim continuará a ser contada eternamente.

  • Trecho da entrevista que Claudio Sassaki

    Trecho da entrevista que Claudio Sassaki, um jovem empreeendedor-educador fez para o PORTAL Believe Earth, vale muito a pena:

    BE – O modelo tradicional de aula está com os dias contados?

    CS – Há um estudo da Universidade de Oxford [no Reino Unido] que mostra que 47% dos empregos nos Estados Unidos correm o risco de serem substituídos por inteligência artificial nos próximos anos. Outro trabalho, da Ernst & Young, revela que o sucesso não está ligado necessariamente ao que você sabe e, sim, à maneira como você consegue interpretar, analisar e interligar informações. Uma educação acompanhada de inovação é aquela que é capaz de entender esses desafios e educar as próximas gerações para eles. Temos um sistema educacional em que provas e quadro negro ainda se fazem necessários, mas está claro que a inovação está diretamente ligada a novos paradigmas na educação.

    BE – De que tipo de educação o mundo precisa hoje?
    CS – A educação deve respeitar as individualidades dos estudantes e ela não está ligada só à escola. A educação que aprendemos em casa e a que temos na escola são complementares e necessárias. Valores são críticos para mudar e melhorar o mundo, mas precisamos de pessoas com conhecimentos profundos, visão crítica, capacidade de comunicação, liderança, humildade sobre seus talentos. Essas competências podem ser desenvolvidas e reforçadas na escola.

    BE – No Brasil, mais de um quarto dos alunos do ensino médio não se forma ou abandona a escola três anos depois de entrar. A principal causa é a falta de interesse pelo que é ensinado. Como aproximar o conteúdo didático da realidade dos jovens?
    CS – Eu acredito que um caminho seja abraçar as singularidades de cada aluno. A partir disso, é possível alcançar aprendizados significativos, conectados com a realidade e que contribuam para a formação de um jovem preparado para os desafios do futuro. Aqui entra o conceito de educação adaptativa que utilizamos e que é propiciada pela tecnologia: os estudantes acessam aulas, fazem exercícios e, conforme interagem com os conteúdos, de acordo com seus erros e acertos, recebem um plano de estudos individual e personalizado, criando sua própria jornada de aprendizagem. Essa jornada é aperfeiçoada pelos professores, pela escola e pelo uso de recursos multimídia.

  • Mito de Rudá

    Rudá, o Deus do Amor

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    No começo, ainda no silêncio… muito silêncio… …havia a escuridão, muita escuridão.
    Nada se via. Nem olhos havia para ver. Escuro, muito escuro.

    Então nasceu o Sol, Guaraci.
    Desde o primeiro dia, Guaraci nasceu como sempre nasceu: devagarinho, primeiro um clarão no nascente, depois uma bola de luz vermelha… ia clareando e subindo… subindo… subindo… e ia clareando tudo, iluminando tudo, aquecendo tudo, derramando vida em tudo…

    Mas o tudo, no começo, era quase nada.

    Então Guaraci viu aquele nada e começou a criar…
    Criou as águas, muitas águas: águas de sal, águas doces, águas de jorrar do céu…
    Depois criou as terras, muitas terras… Entremeando as terras, águas que corriam, águas que paravam… As águas se movimentavam e as terras também… e Guaraci gostava daquele movimento.
    E de ver aquele movimento, Guaraci criou o vento, que também se movimenta. Às vezes forte, tufão, furacão… às vezes leve, brisa calma e refrescante.
    E Guaraci, bola de fogo, esquentava tudo aquilo. E criava.

    Criava peixes, de espécies e cores diferentes, que viviam nas águas, cada qual com o seu tamanho…
    Criava animais de espécies e cores diferentes, que viviam nas terras, cada qual com o seu tamanho…
    Criava vegetais, de espécies e cores diferentes, que viviam nas águas e nas terras, também com tamanhos diferentes…
    Criava pássaros e insetos para povoar o ar… sempre de espécies e cores e tamanhos diferentes…
    E todos eles faziam sons diferentes… cada um do seu jeito.

    E de tanto criar tantas coisas, tanta natureza, tudo tão bonito… ah… Guaraci ficou cansado.
    Ficou muito, muito cansado… e foi ficando com muito sono… precisou dormir.
    Foi fechando os olhos, bem devagarinho, e quando fechou os olhos de vez, tudo ficou escuro, muito escuro. Guaraci não podia ver mais nada de tudo que havia criado. Enquanto dormia, só a escuridão.
    Ah… cadê tudo aquilo tão bonito? Guaraci queria ver aquilo tudo de novo… mas estava tão cansado… Ainda queria descansar mais, mas estava tão sozinho…

    Nesse sono ou nesse sonho, no meio dessa escuridão toda, Guaraci criou a Lua, Jaci. Mas foi no meio do seu sono, quando estava tudo escuro.
    Foi assim: lá longe, Guaraci viu chegando um clarão, no coração da escuridão. Aquele clarão foi crescendo, foi se abrindo no escuro da noite, e foi se apresentando.
    Subindo no céu, foi surgindo ela, Jaci, primeiro como uma bola amarela, cor de laranja, as laranjas que Guaraci tinha criado antes.
    Depois Jaci, a Lua, subia, e subia, e quanto mais alta subia, o seu brilho virava prata, e fazia um lindo clarão iluminando toda a natureza.
    Era lindo o brilho nas águas, clarão nas montanhas… e outros sons se faziam, os sons da noite.

    Era uma Lua tão bonita que Guaraci nessa mesma noite de sono ou de sonho, apaixonou-se por ela. Um sentimento tão bom… ela era tão bonita… e mostrava, do seu modo especial, do modo mesmo de Jaci, ela mostrava tudo aquilo que ele tinha criado.
    Guaraci ficou muito encantado e tão apaixonado que abriu os olhos para poder vê-la e admirá-la melhor… mas ah… quando abria os olhos, tudo se iluminava de um jeito mais forte e colorido, e ela desaparecia…

    E ele queria mostrar a ela o quanto era bonita toda aquela natureza, com suas flores e cores…
    Mas ela não estava mais lá. E ele procurava, procurava… e ela não estava mais lá.
    De tanto procurar por Jaci, novamente Guaraci ficou cansado, muito cansado… e novamente fechou os olhos para dormir um pouco. E enquanto dormia, lá vinha ela, fazendo o seu desfile no fundo da escuridão, com seu lume, com seu jeito de se apresentar e de mudar de ouro em prata… Era mesmo muito bela, Jaci.

    E Guaraci queria dizer de seu amor por ela, e o quanto de lindo havia quando ela não estava…
    E queria dizer que quando abria os olhos para chegar a ela, tudo clareava e ela sumia. E queria dizer também que quando tudo se iluminava e ela desaparecia.

    Então Guaraci criou Rudá, o mensageiro de seu amor…
    Para dizer a ela o que se sentia quando ela crescia no escuro do seu sono…
    E que, na clareza do seu sonho, ele a admirava.
    E ele queria também mostrar a ela quantas coisas lindas havia quando ele estava de olhos abertos…
    E como ele se sentia só quando ela desaparecia…

    Foi assim que nasceu Rudá, o amor. Porque o AMOR não conhece luz ou escuridão e podia levar a Jaci a mensagem de Guaraci. Dia ou noite, Rudá, o AMOR, podia dizer à Lua Jaci o quanto o Sol Guaraci era apaixonado por ela.

    E, ao levar a mensagem a Jaci, ela, por sua vez, mandou também uma mensagem de volta, dizendo o quanto ela achava lindo tudo o quanto ele fazia…
    que ela passava a noite admirando todas as águas, todos os peixes, todas as terras e todos os seres que vivem na terra, todos os pássaros da noite, que se deliciava com a brisa suave, que ouvia os sons da noite, contraponto dos sons do dia…

    E Rudá, o AMOR, levava a mensagem de Jaci a Guaraci, que sempre ficava tão feliz que novamente abria os olhos e iluminava tudo durante o dia… E novamente mandava por Rudá, nova mensagem de amor.

    E por Rudá, Jaci mandava também outra mensagem de amor, dizendo que a luz que ela brilhava também vinha dele, do amor que ele tinha. E que ela também se sentia só e sentia muita saudade, quando Guaraci abria seus olhos iluminando tudo, mas que ela o amava e queria que ele soubesse disso. E Rudá levou a mensagem.

    Então Guaraci criou algumas estrelas, mais estrelas, muitas estrelas, cada uma com um tamanho e brilho diferente para cintilar no céu e alegrar Jaci, fazendo companhia a ela enquanto ele dormia.

    E até hoje, Rudá, o filho do Sol, nascido para ser o mensageiro do amor de Guaraci por Jaci, vive dia e noite, cumprindo sua missão.

    Ele é encarregado de reproduzir os seres criados, pois Guaraci e Jaci querem sempre mostrar um ao outro uma coisa diferente. E todos os dias e todas as noites Rudá, que vive nas nuvens, fortalece esse amor com suas mensagens.

    Ele também tem a missão de criar o amor no coração dos homens, despertando o amor como aquele de Guaraci por Jaci e de Jaci por Guaraci. O amor feito de admiração e de respeito pelo brilho do outro, pois cada um tem seu jeito próprio de brilhar. O amor feito de saudade, de beleza, de encantamento. O amor também pela Terra, pelos mares, pelos rios, pelas árvores, pelos animais, pelos homens, pelas mulheres e entre todos, porque afinal todos são admirados de dia e de noite por Guaraci e Jaci.

    Esta é a história de Rudá, o Deus do Amor.

    É uma história de amor, da mitologia tupi-guarani, em adaptação de Couto de Magalhães.

    Interpretação do Mito

    Falar de um mito é acessar o inventário imagético de cada cultura particular, que se manifesta diferenciadamente, mas que encontra em sua sustentação a mesma matriz arquetípica universal. Interpretar um mito Tupi –Guarani é encontrar uma parte da face brasileira de deuses, que nos arrebatam e assombram de forma específica, desde nossas raízes mais primitivas.

    Dentre esses, encontramos essa tríade divina superior indigenista, representando o Sol (Guaraci), a Lua (Jaci) e o Amor (Rudá).

    Há muito que o sol vem sendo associado à energia criativa e assertiva do masculino, enquanto a Lua expressa a receptividade e o acolhimento feminino. Razão e afeto, amantes apaixonados, porém separados pelo descuido de uma civilização que descarrilou do essencial. Esse casamento sagrado está nas bases de todas as tradições ancestrais e foi respeitosamente tomado de empréstimo pela psicologia profunda.

    No plano pessoal, a despedida entre pensamento e sentimento agoniza na saudade de uma personalidade cindida e resgatar essa união é vital para que se encontre a integralidade da alma.

    Quem sabe por isso, Guaraci, em sua sabedoria, percebeu que nada mais seria capaz de promover seu enlace com Jaci, núpcias sagradas que harmonizam a tensão dos contrários, se não fosse pela ação mágica do amor puro de Rudá.

    O Amor – único artífice capaz de forjar a aliança torneada entre a inteligência e a sensibilidade, matéria vital para transformar a qualidade do homem contemporâneo.

    Também podemos significar o sol como a clareza que caracteriza a consciência e, em contrapartida, a noite que veste a lua, como a simbolização do que nos é cego, oculto e, portanto, nos está inconsciente. Se assim for, Rudá, o Amor, é aquele que liga, resgatando à luz, das mãos estranhas da sombra, o que rejeitamos ou fomos impedidos de conhecer. E assim, ao desvelarmos o desamado e reconhecermos nele algo de íntimo, podemos ser tomados pela própria compaixão. Ego ferido entregue ao colo de sua amorosidade, pode agora enamorar-se de cada parte desagregada da personalidade, mesmo as mais repulsadas, que estavam projetadas no mundo exterior, ansiosas para retornar para casa.

    Vemos então, expressa no mito de Rudá, a proposta do grupo de terapeutas e facilitadores da Terra de Rudá: oportunizar o encontro da inteireza daqueles que percebem e desejam experimentar o caminho inspirado no Ser, cuja possibilidade de expressão depende de escolhas corajosas e discernidas para que, enfim, o Amor Verdadeiro aconteça.

  • A Tradição do Agora

    A Tradição do Agora – por Sergio Seixas

    De quantos quilos de história se faz um Homem? É possível resgatar o Ser debaixo dos escombros do passado? O pensamento fez de nossa cabeça uma lan-house; nossas emoções endividaram-nos de objetivos; as religiões protegeram-nos de Deus; a filosofia efeminou o Ato de vernizes narcisistas perante a miséria da condição humana; a política legitimou meninos de terno a serem oficce-boys de interesses econômicos; num mundo onde o lucro simboliza o gozo, o capital, este defunto histórico, recusa-se a sua cerimônia fúnebre; a psicologia, no redu tível, prometeu liberar-nos da compactação das identificações, mas se deixou seduzir pelas próprias interpretações; as artes estetizaram o horror documentando-o, documentando-o… sem nada poder propor, pois seria piegas de mais para a sua chique contemporaneidade; a imagocracia fez de nossos cérebros, goma de mascar a serviço de um tempo escorrido no ralo das frustrações pessoais e a fronteira entre afeto e business carencial tornou-se tênue demais para a inteligência do homem adaptado.
    O que nos resta senão o Presente? Quando não se tem mais tempo para uma reversão, só o Agora nos resgatará deste entulho apocalíptico. É necessário um martelo simbólico para craquelar o elmo mental e liberar o Instante da Experiência confinado em grossas crostas de cultura.

  • Projeto Rudá: Vídeos

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  • O PROJETO RUDÁ

    O PROJETO RUDÁ surgiu a partir de uma amorosa indignação compartilhada. Ao longo de uma década com retiros de imersão, workshops, cursos, palestras, vídeos, fabulações performáticas, contações de histórias, meditações, mitologias, artes oraculares, artes florais, arqueontologia, estudos interdisciplinares, abordagens transreligiosas, contemplação na natureza, um “faSer” (fazer no Ser), em que a Arte nos bordou a relação entre o objeto estético e a reconstrução de um ego à serviço do Ser, tudo isso inspirado por conceitos insubmissos ao normativo acadêmico, pudemos observar o que cada buscador de fato demandava. Com uma escuta atenta, a Terra de Rudá percebeu o que entusiasmava, alimentava e fortalecia a pessoa em busca de seu rosto. E foi nessa relação de confiança e coragem que sintetizamos em 10 itens o que achamos fundamental para um recomeço de renascimento deste homem desidratado de si, faminto de seu Sonho Real, de seu verdadeiro lugar no mundo.

    Ao irmos além do fórum psico-espiritual em que nos fundamentamos e exercemos ao longo de anos e abrirmos, no plano da cidadania, para vozes anônimas de extraordinário alcance, ainda que estejam fora do poder constitucional, como você e eu, por exemplo, queremos expandir esses 10 itens até chegarmos a um olhar que traduza o mais fielmente possível as demandas da alma dessas pessoas, ou seja, de nós, cansados de nos adiarmos com promessas lesivas ao Ser.

    Dez Itens do Processo de Reeducação da Terra de Rudá

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